Negros e Cotas
Por Evandro Ambrósio
Um dos assuntos mais polêmicos dos últimos tempos na sociedade real, midiática e virtual, a política de cotas para negros e pardos, à princípio, nas Universidades, divide opiniões tanto de brancos, como a dos próprios negros, a favor ou contra tal iniciativa.
Antes, eu confesso que não sabia se a adoção de cotas, tanto acadêmicas como profissionais, seria a solução para o combate ao racismo que existe sim no Brasil. Porém, aos desinformados ou esquecidos, contrários à política de cotas de plantão, não se pode negar que há mais de 500 anos sempre existiu, não um sistema de cotas, mas sim um escrachado sistema de preferência, ou de exclusividade, ao cidadão de pele branca em todos os setores da sociedade.
Tanto que, falando brevemente de história, quando foi abolida oficialmente a escravidão, e não por compaixão, mas por motivos políticos, uma vez que a Revolução Industrial na Inglaterra inviabilizou a mão de obra escrava em suas colônias e projetou os negros como prováveis consumidores, fazendo com que tal situação pressionasse todos os outros a abolirem o regime escravo (e o Brasil foi último país a abolir a escravatura), os preguiçosos senhores a princípio buscaram uma forma de substituir a mão de obraescrava. Sendo assim, "importariam" mão de obra chinesa, mas os "porcos" chineses trariam má cultura para o país, que já tinha negros de mais. Então, abriram as portas para fugitivos europeus da Segunda Guerra, como alemães, polonese, e principalmente italianos (antepassados mesmos que hoje na Europa são extremamente xenófobos e odeiam negros e sul-americanos que não jogam futebol, mesmo o nosso continente tendo abrigado e "heroificado" alguns de seus próprios antepassados). Mas o verdadeiro objetivo do acolhimento aos imigrantes europeus era o de embranquecimento do país, pois os escravos, ou ex-escravos negros na época, já se tornavam maioria no país.
Não aprendemos esta e nem a nossa própria história, não aprendemos sobre nossa descendência, pois para alguns a África é um lugar onde todos são iguais, pele preta e pronto. Enquanto os europeus são latinos, slavos, sérvios, nórdicos, germânicos, não temos o direito de sermos bantu, ashanti, xhosa, cabinda, benguela. Não temos heróis, nossos mitos ou crenças são ignorantemente marginalizados como macumba. Não temos força, não somos associados ao belo, ao competente, não estamos nos nomes das ruas e praças que fomos forçados a construir, enfim, não existimos. Não estamos inclusos no modelo de sociedade pensado para o Brasil.
Para o cidadão de qualquer etnia, a auto-estima é tudo. Mas como ter auto-estima numa sociedade que condiciona um afrodescendente a se sentir inferior? Como adultos nós nos defendemos, mas como explicar para uma criança de 6 anos covardemente hostilizadana escola que ela nunca terá a pele, o nariz, os cabelos da Xuxa, ou de qualquer outra apresentadora infantil loira (cota ou exclusividade?), mas que ela é sim bonita com sua africanidade? Tá, hoje não temos mais este modelo para apresentadora infantil, ou sabe lá se ainda existe programa infantil, mas nas mídias em geral, tudo que envolve imagem NUNCA está associado ao negro, como telejornais, talk shows, agência de modelos, e na dramaturgia ainda estamos limitados a papéis de empregadas, seguranças, ou até quando a novela ousa querer falar de favela ou periferia (discutiremos em breve), o negro se limita a papel figurante, ou detraficante, enquanto o herói da comunidade mantém o estereótipo nórdico e fala gíria forçado. Vivemos num país onde simplesmente num concurso "Miss Bahia" não tem sequer uma mulher negra.
Em tais condições, ainda desenvolvemos nossa própria cultura, como samba, capoeira, carnaval, mas que ao invés de explorarmos o que é nosso ao nosso favor, deixamos a elite oportunista nos tomar, descaracterizar, e utilizar contra nós mesmos como o "Panis et Circus" de Cesar na Roma Antiga. Aí voltamos as cotas, e explico porque apesar de tudo ainda não me convenci pela política de cotas. O negro ainda não tem noção de sua existência. O país é cordialmente racista, onde nada é pensado ou veiculado para o negro, e mesmo assim não sentimos a necessidade de reagir. Fomos por séculos privados de informação, então quando há debates, projetos, editais referentes ao negro, ou até as próprias cotas, o afrodescendente ainda não usufrui de tais oportunidades, porque não se assumem, não sabem em que país estão vivendo, mas estes mesmos cidadão lotam os sambas de roda, as excursões para Tietê, na festa de São Benedito, e não que seja ruim, é muito bom, e pode ser melhor com uma educação empreendedora que falaremos em breve, mas estas pessoas ainda se interessam pouco em ocupar as Universidades. E por mais que sejamos condicionados a estar longe da educação, a informação hoje é abundante com a expansão da internet, por exemplo. A famosa "expansão da Classe C" por exemplo oferece condições do jovem comprar roupas de marca, financiar carros e motocicletas, mas poucos ainda pensam em pagar uma Faculdade particular com o custo equivalente, porque não somos condicionados a questionar, a reagir.
Penso que além de pensarmos em cotas, seja também importante pensar na reestruturação da educação de base, para conhecermos nossa verdadeira história, sabermos quem somos para sabermos para onde devemos ir. O projeto de lei emcabeçado pelo secretário da Igualdade Racial, Netinho de Paula, em inserir história da Cultura Afro-brasileira e Africana nas escolas, por exemplo, é um bom exemplo. Incentivo a livros, informação, postura, forma de pensar, e a manifestação de um interesse maior pela causa. Se um jovem gosta de samba, além de ele simplesmente curtir, ele pode usar a internet não só para o entretenimento em si, mas ele pode pesquisar sobre a história do samba, dos instrumentos, os grandes ícones.
Apesar da polêmica e da minha dúvida pessoal, minha opinião ainda pende levemente favorável a cota. Afinal, quando o jovem negro se aliena não se da conta do caminho que tem que percorrer para buscar a igualdade, isso nada mais é do que reflexo da exclusão que justamente a cota tenta combater. E essa exclusão sim faz parte é o modelo de sociedade pensado para o negro no Brasil.
